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Os cancioneiros Lusos

 

Já em terras lusas, o primeiro cancioneiro que deve ser abordado é o Cancioneiro da Biblioteca Publia Hortênsia, ou Cancioneiro Musical de Elvas.

Este manuscrito foi descoberto em 1928, e hoje em dia encontra-se em Elvas. É um cancioneiro de mão de 14 por 10 cm, de caligrafia bem cuidada, uniforme e clara, o que indica a mão de um copista profissional. É um manuscrito que data sensivelmente de meados de 1500 (contemporâneo, portanto, dos outros cancioneiros espanhóis), e que até nós chegou em quase perfeito estado de conservação. Divide-se em duas partes: musical e poética.

A sua configuração física permite ter uma percepção clara do uso dado ao cancioneiro desta época: cada canção encontra-se dividida em três partes, cada uma correspondente a cada voz, o que significa que se destinava não a ser um objecto de uma qualquer biblioteca, mas sim uma ferramenta de prática musical, em que as partes se encontravam distribuídas como hoje se encontram nas partituras de orquestra, voz a voz sem presença do todo para cada músico. A letra encontra-se escrita na íntegra no final, por baixo do espaço inferior à terceira voz.

Musicalmente este cancioneiro é muito importante, uma vez que se encontra fortemente ligado ao Cancioneiro Musical de Palácio pelo repertório comum. Este facto indica que apesar das diferenças geo-políticas entre Castela e Portugal, o repertório musical praticado na época era de carácter ibérico, e circulava com facilidade.

As suas 65 canções são um valioso testemunho da prática polifónica portuguesa de 1500, e atesta uma prática musical sofisticada, erudita e de carácter nitidamente europeísta, com repertório que facilmente poderia estar presente numa qualquer outra corte ibérica.

O seu repertório é na quase totalidade composto de cantigas e vilancetes, com excepção de uma quadra, três tercetos e uma sextilha. Os seus textos são de autores tais como Juan del Encina, Dom Manuel de Portugal, Garcí Sanchez de Badajoz, ou Dom Afonso de Menezes. A música, para além das anónimas, é de autoria de Pedro de Escobar, Juan del Encina, e Pedro de Prestana, facto que põe em evidência a ligação com o Cancioneiro de Palácio. A temática das canções não apresenta grande variação das dos cancioneiros congéneres espanhóis. Com não deixa de ser natural, a variação mais evidente é a presença da língua portuguesa no repertório, mas mesmo assim este não é o idioma principal, dado que nesta época a corte portuguesa e o meio cultural era bilingue.

Documento também importante para a compreensão da música do renascimento português é o Cancioneiro Musical de Belém, o mais recentemente descoberto. Constitui-se por uma colectânea de 18 canções, muitas delas já presentes nos cancioneiros de Elvas, Évora, Lisboa e Paris, com algumas variações, sendo que é datável dos primeiros anos de 1600, embora o seu repertório seja de entre 1560 e 1580.

O outro documento importante para o panorama musical da época é o Cancioneiro Musical da Biblioteca Nacional. Ao contrário do que se costuma pensar, não pertence aquele outro poético, a não ser no caso de correspondências da poesia musicada, mas são efectivamente dois documentos separados.

A importância deste documento e crucial: permite-nos conhecer repertório como o do teatro vicentino, tão importante para nós, e sobretudo oferece-nos repertório que varia dos cancioneiros de Elvas e de Belém, o que nos expande o conhecimento da música da época.

Como documento, é assaz interessante, porque ao contrário dos outros exemplos, é mais elaborado, sendo ornado com uma bela caligrafia musical e poética, e ricos ornamentos nos inícios das letras. Contém 21 obras religiosas em latim, depois 9 de repertório palaciano, 2 outras religiosas, outras nove profanas, uma página de apontamentos grosseiros, e outras 9 composições religiosas, constituindo então um rico corpus de 41 obras dos séculos XV e XVI. Graças a ele conhecemos obras tão belas e raras como o famoso romance “Niña era la Ifanta”. Contém música de autores presentes nos outros cancioneiros, e com neles, Pedro de Escobar é uma pedra de toque.  

Francisco Manuel Ramos Ricardo

 

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